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Psicologia

 

 

 

 

A conquista da inteligência, tanto pela humanidade como pela criança, é um penoso e permanente processo de auto-superação de estados inferiores. A evolução é um processo inteligente. Para muita gente, o ideal seria uma inteligência inata: assim não dava tanto trabalho ser inteligente...
Contudo, é próprio da inteligência inventar, modificar-se, recombinar. A inteligência é fluida e só se manifesta em situações novas.
A palavra "inteligência" pode ser usada em dois sentidos: o operacional e o criativo.
A inteligência operacional é a maneira como a pessoa usa automaticamente algo, como por exemplo, o professor de matemática que dá ao aluno a fórmula para resolver um problema está ensinando uma operação inteligente, mas não está ensinando a criança a ser inteligente. Neste caso a criança é impedida de inventar a solução, aprende a não inventar e se convence de sua incapacidade de resolver o problema se não lhe for dada a fórmula. "Aprender uma fórmula é fixar um hábito, e hábito não é inteligência"
A inteligência criativa seria a longa cadeia que vai da invenção da fórmula à aplicação desta pelo aluno. Só existe inteligência naquele que inventou a fórmula. Para entender a fórmula, a criança usa um tipo de inteligência que se chama "compreensão". Inventar é, simplesmente, experimentar formas sucessivas de combinações. Quando uma determinada combinação de movimentos resolve o problema com o qual nos defrontamos, diz-se que houve "invenção".
Todo ensino que se baseia na imitação (do educador), isto é, que depende da aprendizagem de fórmulas, definições e nomenclaturas não é ensino inteligente. Uma didática Piagetiana consiste, precisamente, em descobrir as técnicas de ensinar através do "ensaio e erro", da pesquisa e da solução de problemas novos.
Desta forma, não adianta jogar com o sentido misterioso da palavra "capacidade", pois quem tem capacidade para resolver um problema sabe resolver este problema ou por instinto (inato) ou por hábito (adquirido), isto é, tem uma "fórmula". Não se deve então confundir "capacidade" com "possibilidade". Um indivíduo pode não ter capacidade agora para resolver um problema, mas tem possibilidade de encontrar sua solução. Quem sabe e tem a capacidade de datilografar pode inventar um poema datilografado, e, neste caso, o poema é que seria a invenção.
Assim, a inteligência é o próprio ato de inventar e inventar é combinar sempre a partir de um ato original, porém não se inventa nada a partir do nada; a diferença está em inventar de modo original, pois o ato que se repete não é mais inteligência.
A inteligência é sempre a "melhor forma" possível de superar uma dificuldade. Por aí se vê que a inteligência está implícita em tudo que se constrói e em tudo que tem vida.
Há uma primeira forma de ensinar alguma coisa a alguém, que é chamada "instrução programada", "a mesma utilizada por muitos autores de livros denominados de auto-ajuda, que equivale a técnica de criar reflexos condicionados: faz-se o indivíduo repetir o comportamento ou o pensamento até que ele "fixe", como um automatismo, sem que o indivíduo precise tê-lo compreendido necessariamente. Outra forma, muito usada em psicoterapia, é fazer primeiro o indivíduo entender, e só então passar-se para a fixação e, consequentemente, às mudanças, criando-se novas atitudes". Da mesma maneira, quanto à aprendizagem, sua verdadeira forma é a estimulação, para que o aluno, antes de qualquer insinuação do professor, invente maneiras de resolver o problema. É o que se chama educação pela inteligência. O indivíduo que não é inteligente parece ser uma máquina (a máquina repete, infinitamente, os mesmos movimentos).
Se os homens inventivos são incômodos para a mediocridade, são, contudo, os únicos que ficam na memória da humanidade. A arte, por exemplo, fundamenta-se na mais extrema originalidade (não tem sentido repetir uma criação artística). O indivíduo que tem medo da inteligência, portanto, não tem vocação para homem: é rinoceronte infiltrado na raça humana...O que desejaria ser, de fato, era um animal qualquer. O que acha mais cômodo são as respostas instintivas.
Realmente, não é brincadeira, diante de cada dificuldade, ter de inventar solução. É por isto que foi escrito na primeira linha deste texto que "a conquista da inteligência é um penoso processo de permanente auto-superação". Se isso é uma tragédia, então o homem é um animal trágico.
É raríssimo o caso de um filósofo, poeta, artista, inventor que não tenha sido perseguido, durante algum tempo, se é que não tenha sido queimado na fogueira. A originalidade parece sempre heresia ou pecado. É que toda novidade implica na necessidade de re-arrumar o meio para incluí-la, se é que a novidade já não é, por si, uma re-arrumação. Ora, numa re-arrumação nunca se sabe onde ficaremos: combate-se, pois, sistematicamente, toda novidade. A mudança gera insegurança, pois não se sabe, se terminada a mudança, estaremos no lugar que desejamos, se não teremos perdido status, se não ficaremos of side com as aptidões com que vínhamos tendo êxito. É, pois, justificável o medo da inteligência, salvo se o homem se convencesse que sua "natureza" é a mudança permanente, pois o homem é o ápice da evolução, é o animal que tem mais capacidade de fabricar novas soluções.
A educação pela inteligência consiste em, simplesmente, propor problemas aos alunos, jamais em ensinar soluções, "assim como no processo de psicoterapia, onde se valoriza a busca da compreensão de si mesmo e dos problemas, a aceitação de sua condição e a flexibilidade e disponibilidade para mudanças, sem o profissional dar as soluções prontas e acabadas".
O grande equívoco é supor que ao funcionalizar a "espontaneidade" aparece o " homem original", pois não existe "homem original", inato, acabado em si mesmo; o que existe é o fato do ser humano estar em constante construção. Assim, a inteligência é a flexibilidade que permite novas combinações, segundo um plano de maior equilibração interna e de maior adaptação ao meio, ou seja, é a forma de coordenação da ação (motora, verbal ou mental) frente a uma situação nova com o objetivo de auto-organizar-se para enfrentar a situação, de encontrar um comportamento que mantenha o equilíbrio entre o organismo e o meio.
Toda atividade tem duas variáveis: uma estratégia (formada ação = inteligência) e uma energética (o tônus com que a atividade é exercida = afetividade). A tonalidade da ação é determinada pela necessidade (carência, fome, periculosidade da situação, motivação, interesse, escala de valores, etc.), fator tão importante que pode, por excesso ou carência, impossibilitar a estratégia da ação. Não há estratégia (inteligência) sem energética (afetividade), pois os afetos só se manifestam no curso da ação.
O mecanismo básico de adaptação é a coordenação das ações e esta é simplesmente a inteligência.


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LIMA, Lauro de Oliveira - Piaget para Principiantes, Summus Editorial, 5ª ed., pg.58-64, 73-4.
Foram feitas pequenas adaptações por Fabiana Freitas.

A Anormalidade da Tromba do Elefante
e o Medo que a Mediocridade tem da Inteligência
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